Vontade de pegar um trem para uma estação desconhecida, sem objetivo algum. Parar, por exemplo, em Baltazar Fidélis. O que é isso, afinal, uma cidade, um bairro? Eu penso que vou descer lá e dar de cara com Mário de Andrade e Belazarte proseando na frente de um boteco. Penso que ao desembarcar, vou encontrar uma cidade cenográfica da rede Globo. Penso que posso andar por suas ruas cheinhas de comércios populares, lojinhas cujos donos são eternos herdeiros de mascates portugueses, passar por um correio e me espantar finalmente com um Mc Donalds que destoa, não em sua arquitetura e aspecto, que são em tudo tão decadentes quanto o boteco em que toma uma cerveja Belazarte, mas em seu amarelo e vermelho surpreendentemente malcheirosos.
Que difícil descer em Baltazar Fidélis. Olhei através das grades da estação, fiquei com medo: lugar tão conhecido, tão igual aos outros lugares que vi do interior de São Paulo, mas tão diverso. Voltar a pegar o próximo trem pra capital, pros lugares anteriormente visitados, cinemas, centros culturais, museus, bares, motéis, shoppings, lanchonetes paulistanos... O medo. O casal que sentou na minha frente, no trem, também desceu aqui. A índia que tinha sono e dormia no ombro do menino de boné, correntes e tênis grandes... o medo, enfim, de seguir secretamente o casal também vindo de Jundiaí. Que vão vocês dois fazer em Baltazar Fidélis, vocês que nem têm 18 anos, suas mães sabem que vieram a Baltazar Fidélis?
Minha mãe não sabe, nem imagina. O medo de andar em Baltazar Fidélis é o medo que minha mãe botava na gente quando saía pro "cinema" com meu pai. Mãe que me deixava sozinha em casa e me dava intermináveis instruções em caso de incêndio, de emergência, de fome, de sede, de tédio, de perigo, de vento, de animais silvestres que porventura entrassem pela janela do apartamento, mas que nunca me deu uma instrução sequer sobre Baltazar Fidélis, nunca parou um instante pra pensar nisso.
Perdi o casal. O que mais em Baltazar Fidélis? Um correio, duas gordas de barriga de fora comentando algo sobre cabeleireiros. Acho que fiquei louca, parei em uma esquina e li durante assustados e aproximados treze minutos esses nomes de ruas nas placas em noventa graus: Tancredo Neves e Getúlio Vargas. Imaginei Tancredo e Getúlio trocando apertos de mão nesse cruzamento. Quantas pessoas já me cruzaram nessa esquina apertada de personalidades, nesses treze minutos? Seriam baltazarienses? Fidelianos? Baltazarfidelieiros? Acho que esse nome afinal não é de cidade. Que cidade é essa? Precisei parar de olhar Tancredo e Getúlio: o sol não estava pra brincadeiras e olhar pra cima não é o meu forte. Meus pés ficaram dormentes, meus ouvidos se revezaram em tirar minha audição e minha visão nublada me fez querer uma praça pra sentar, tanto tempo encarando placas. Não tendo ainda achado uma praça, sentada em frente à porta de um restaurante interditado pela vigilância sanitária, meu celular:
- Onde está?
- Mãe.
- Onde está?
- Tou em Baltazar Fidélis.
- Tá indo pra São Paulo?
- Não.
- Tá no trem?
- Em caso de emergência em Baltazar Fidélis, mãe, o que fazemos?
- Desceu aí? Desceu por quê? Tem alguém com você?
- Tem não, tou sozinha.
- Volte já, agora, pro trem, você...
- Mãe, lembra quando o tio Régis entrou em depressão, teve um surto e fretou um avião pra ir falar com o presidente em Brasília?
- Minha filha, você volte agora! Agora!
- Mãe, eu vim até aqui pra falar com o Tancredo e o Getúlio de uma só vez.
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