18 de janeiro de 2012

Laranja transgênica

Vinte e quatro horas viajei. Um dia parcelado em quatro viagens foi o meu jeito preguiçoso de refletir sem pressa sobre o que me angustia apressada e diariamente: por que sentimentos não sobrevivem muito tempo sem casa, comida, boa vida e dinheiro pra gastar?

As horas me contaram uma história do amor: eu via, do lado de cá da janela, homens e mulheres deixando seus amores aos menos ambiciosos, homens deixando seus amores em clínicas, mulheres deixando seus amores em puteiros, mães deixando seus filhos às babás, casais deixando que tudo se deixe de lado porque afinidades não se compram no mercado... As viagens começavam ou terminavam com uma trilha sonora interessante: "O Encontro Marcado", "O Amor nos Tempos do Cólera" e "Noite de Almirante".

Alguém há de entender (e explicar de uma forma que ninguém entenda) "como se davam" os conflitos dos deixares no século XXI - eu não. Enquanto eu não compreendia as cabeças das cidades de chegada e partida, o filme que passava pela janela precisava as situações de um jeito que as minhas fotografias, postas em ordem, nunca precisaram. As janelas dos ônibus não são como as lentes das câmeras nem mesmo como as janelas dos aviões, que sublimam. As horas, as árvores, os fios, o vale, os rios e a ferrugem nos trilhos foram os lentos personagens que hoje costuraram meu tempo em mim, me gritando, em um filme mudo de um dia, em um dia mudo e impotente, que de nada adiantou a medicina e a longevidade das nossas vidas. Ninguém espera.

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