16 de janeiro de 2012

crônica de parrilla

Palermo de Buenos Aires, verano de 2012.

Dois garçons portenhos, que não chegam a velhos. Cinquentas ou talvez um pouco mais. Dois, um mais baixo, cabelos igualmente negros e lisos. Portenhos, dois garçons. Passam os dias, sete, de cada vez um deles. Começam com as mesas limpas, os jornais em centro e pequenas carteletas com combinados de desayunos. Assim, ainda para dentro e falando baixinho, servem cafés, perguntam e respondem novidades e fazem a primeira celebração; de porcelanas tilintando e arome de ovo y jamón. Dois mercadores únicos, padres, reis e vizinhos de um país de ambos. De um mundo que começa sempre com xícaras e bons dias, para o qual jornais e passantes da rua são notícias idênticas e repetidas.

Neste mundo, há limites e territórios. São reis irmãos, mas cada um com sua corte e seus caprichos. Ou talvez reis de uma única nação, que se alteram no poder, em um perfeito espetáculo de transformação a cada nova entrada? Cada novo estrangeiro e um país diferente, com os mesmos sons de xícara e olor de jamón. Um reino, país e mundo que existe para cada diferente estrangeiro, todos cheios de ganas e pedidos e, nesse sentido, idênticos perante seus reis. Para cada um, este mundo existe exclusivamente na e por meio da relação com os dois anfitriões, na verdade, sempre e, de forma irreversível, com apenas um deles.

Assim, inúmeros e paralelos mundos se distribuem por tábuas e tótens de madeira, ao redor dos quais, outros mundos, estes completamente independentes dos primeiros, encontram, como um raio, em noventa graus, aquele tímido e mudo reino de garçons. Sozinho ou acompanhado, cada novo súdito é também rei de um mundo perpendicular, que se cruzou pela porta e escolheu mesa e pedido. Destes, reinos de pensamentos dispostos ao largo do salão, reino de carícias, reino de conversas e silêncios ou mesmo de uma simples leitura, somos soberanos absolutos. Porteiros únicos que, com sorrisos e gracias, deixam aqueles sempre solícitos reis de meia idade de fora.

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