Era uma vez dona Rosilda, uma senhora que escrevia poemas. Julgava-os belos. Certa vez mostrou alguns à síndica do prédio em que morava, e esta até resolveu colocá-los, de tempos em tempos, nos elevadores. Quão elogiada fora pelos moradores! Poema do dia das mães fazia sucesso, da primavera e dos planetas não comentaram - mas também, o dia-a-dia é tão movimentado! -, o do meio ambiente era acompanhado de consentimentos, poema da pátria nunca era lido até o final, principalmente pelos condôminos dos primeiros andares, mas não deixava de ser elogiado - a "primeira estrofe é ótima!", diziam-lhe. E o do dia dos namorados, então? O porteiro lhe jurava que assistia aos beijinhos vexantes dos casais, agora coloridos - trocaram as câmeras -, protegido na sua cabine pela sua segurança insulfilme.
Foram meses bons, aqueles! Mostrava suas flores artesanais, com diamante e tudo, como diria Bilac, a seu marido, que tendo sido veterano da segunda guerra, alemão naturalizado brasileiro, não ligava muito pra essas coisas. Mas sempre sotaqueava: "que jóia!", e ela apertava os olhinhos em um sorriso míope.
Um dia, resolveu mostrar o tal poema dos planetas a seu neto que, por azar, prestava vestibular naquele ano. O menino leu, coisa mais linda, comparava cada planeta a uma característica das mulheres.
- Pois é vó, primeiro que não usamos mais trema; segundo que oitavas são usadas em poemas épicos, não líricos; terceiro que Plutão nem é mais planeta. Mal.
Coitada, Rosilda passou uma semana de cama. Nunca mais escreveu um poema, ao que consta.
Não ao Desemprego
1 dia atrás

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