23 de abril de 2017

a última página de um livro

A última página de um livro 
lido com ardor. Crava uma falta 
lacerante. Por nunca mais haver 
um retorno possível. Que não finde 
na inevitável página. Aviltada e possuída, 
sem ponto e perdida. Incapaz de despertar ardor ou mesmo nostalgias.

4 de abril de 2013

um uns

um assunto eu não entendo
e nem tou pra entender:
por que é que eu escrevo
e que volto a escrever
se tem mais de muito nego
que já disse o de dizer

5 de janeiro de 2013

funk sonhado


eu vou é dar barraco
eu vou subir na mesa
mas isso eu só faço
com uma condição:
sendo o pé-direito
maior que a distância
entre mim, a mesa
e o chão

26 de outubro de 2012

Uma história radicalmente resumida da vida pós-industrial

Quando eles se conheceram, ele fez uma graça, esperando ser apreciado. Ela deu uma risada muito forçada, esperando ser apreciada. Então ambos dirigiram para casa, olhando fixamente para frente, com a mesma expressão em suas faces.
O homem que os apresentou não gostava muito de nenhum deles, apesar de fingir que sim, ansioso que estava para preservar boas relações com ambos. Nunca se soube, afinal, agora um sabe agora um sabe agora um sabe.

David Foster Wallace.

23 de agosto de 2012

a mosca

em Itanhaém, um coração explodido, diagnósticos, e eu que era arrastada pelas calçadas. não, não era eu. entre aspas algo como as calçadas me caminhavam. me ca mi nha vam. já não me lembro bem, tiro as aspas e parafraseio. soluções mnemônicas, dissoluções mnemônicas, compressas, contrastes, xaropes e antiinflamatórios costuram os acontecimentos do dia. até quis ter baratas em casa, lagartixas ou pererecas - um susto qualquer entre tijolos e pixels. sobretudo o meu joelho está exposto e uma mosca passeia por ele desde 2005.